segunda-feira, 18 de abril de 2011



A RUA SEM SAÍDA

Fiquei com tanta pena
Da rua sem saída que não tinha
Pra onde ir, caminho, esperança,
Que ali se acabava
Que ali se extinguia
Sem poder voltar ou começar do fim
Fiquei com tanta pena
Pelo tanto de nada naquilo tudo

Senti uma emoção pequena
De tonalidade serena
A manchar as paredes do meu coração
E são de tinta duas mãos
Ainda parado e perplexo por quase nada
Parou-se o tempo ao meu redor
Somente ali na rua sem saída
O trechinho de rua sem endereços
Nem o tempo lá ia, só o desprezo

Fiquei com tanta pena
Daquele pedaço de asfalto sozinho
Sem escutar nenhuma conversa
Quem dera um verso em desafino
Ou um jogo se bola, um encontro de amigos
Ou um beijo noturno, escondido do mundo
Nem início de surto, nem passarinho
Nem pra lá se vão os cachorros sem lar
E antes de alguma coisa falar, ninguém vi
Lá tem nada, nada, nada
Fiquei com tanta pena

sábado, 9 de abril de 2011



ABRIL DE NOVIDADES

Este mês abriu-se as portas
Para muitas novidades que enfeitavam-se
Afoitas para adentrar este mundo lívido e silencioso
E entraram correndo e sorridentes
Quase deixando escapar pelos dentes
Algumas falas ainda sem nexo, sem cor e sem sexo
A correria de crianças que eram essas novidades
Querendo decorar o ambiente ainda cru de ilusões
Não me permitiu ao menos cobrir parte das vaidades
Que andavam sem vestes e filosofavam sobre enganos

O que abriu-se neste mês nem era previsto
Tantas novas cores como novos amores
E de papel crepom cobriu-se muitas velhas fantasias
E da nova cartolina vestida de grandes inscrições
Pode-se ler as frases mais doces sobre paixões,
Esperança, boas novas e grandes invenções
Aboliu-se neste mês várias insignificâncias
Várias coisas sem mínima importância
Para dar espaço às recém chegadas crianças
Que se explodiam de bondade e alegres confetes

Em abril eu renegociei a minha estadia
A minha vida na vida que eu tinha e não sabia
Eu abri meus olhos de uns cílios vibrantes
E enxerguei além do que podia nitidamente ver
Independente do querer eu apenas digo que não podia
O que agora faço sem medo dos novos dias
É simplesmente desabrochar minha felicidade
Eu sinto, eu quero e eu posso

Abrir as idéias assim como se abriu
Abrir as pétalas de uma rosa febril
Abrir de ternos dias este mês de abril

sexta-feira, 1 de abril de 2011



CÉLULAS SONORAS

A música mora em mim, aqui,
ali, em cada vão de carne.
A música ecoa nos meus pulmões,
retine, pega a auto estrada das grandes veias,
se define, se nomeia, se lambuza e me recheia.
A música toca meu coração como Midas
e com veludo nas mãos me investigas.
A música passa horas em meu pensamento,
vagabundeando em compasso lento.
Ela cochila atrás dos olhos, existe atrás dos ouvidos.
A música exala de cada um dos meus poros
e expande o aroma de meu espírito sonoro.
Me devora e me sustenta, a música.

A música processa o álcool consumido pelo amor,
pela perda, nos motivos nobres e fúteis,
é minha mão direita, a perna esquerda
me julga e me condena, só as notas me são úteis.
A música destranca minha insensatez,
faz doce da certeza que virou talvez,
alegra-me, leal amiga.
Da parte que me brilha é a única filha.
É a célula morta que se esvaiu a pouco
e nasce em seguida compondo meu canto rouco,
numa só matéria, eu e a música.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011



NO FIM DAS CONTAS

E o fogo exatamente como o homem
Que muito deseja
Consumiu tudo e padeceu faminto
Quanta pena que eu sinto
Daqueles que fizeram guerra
Se matando por extensões de terra
Que um dia aqui ficarão
Consumindo lentamente a podridão
Dos nossos restos mortais
É o tempo perdido em ódio e rancor
Porque todo tempo é perdido
Se não gasto em amor
No fim das contas é o que conta

domingo, 13 de fevereiro de 2011



PRA COMEÇAR A NAMORAR

Pra começar a namorar, de fato,
é preciso estar apaixonado,
ou estar à porta da paixão,
sentir o frio na barriga
e o vento forte da beira do abismo
dessa mesma paixão, o doce desconforto.
E pra se apaixonar não precisa quase nada pra começar.
Mas pra começar a namorar,
é preciso estar atado, por mil questões,
confessamente ameaçado por meras sugestões
de infortúnios da desilusão, de um descaso talvez.
Pra começar a namorar
é preciso precisar do outro
não como essencial, mas como escolha
pra todas as horas, é preciso querer,
com intensidade sempre acima do doer.
E pra se apaixonar não precisa quase nada pra começar.
Pra começar a namorar mesmo,
é necessário sonhar sempre acordado,
é preciso viajar sempre deitado e,
enxergar no outro teu outro lado.
Pra começar a namorar
é preciso ceder de muitos jeitos,
e ainda assim estar satisfeito,
é não ter a menor dúvida
de ter recebido as doses cavalares
de um verdadeiro amor,
de uma verdadeira paixão,
que não precisa de quase nada pra começar

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011



QUINZE MILILITROS

Ovomaltine de madrugada, de colher,
nessa sucessão de quinze mililitros
até minha boca, amarga e muda.
Enquanto isso os olhos navegam na grande rede
e o corpo inclina com a alma sonolenta,
a língua se banha em mililitros, curioso,
de quinze em quinze, e rápido acaba.
O peso dos olhos é tão inevitável.
O tempo aos olhos é tão instável,
por que o verão anda tão perigoso?
Janeiro agora é de um funeral assombroso, credo.
E busco mais desse leite que logo sujo com malte,
a revolver chocolate.
Os olhos ainda velejam.
No dia seguinte o copo ainda está na pia por lavar,
as formigas aprovam o desleixo.
Aquele vestígio de líquido metálico...
Lá no fundo me intriga, é isso que eu tomo?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011



MSN

O amor por aqui passou, rápido,
no meio da conversa
onde estávamos na janela,
digitávamos anseios e ele passou,
quase não vimos e talvez não mesmo,
mas ficou seu aroma.
O amor passou como um passarinho,
passou alegre e mensageiro,
piscou e bateu asas.
Nós continuamos debruçados na janela
nos tocando por palavras digitadas,
e cada vez mais encantados
pela colocação de cada vírgula, emotions
e suspiros de reticências...
O amor provavelmente nos tocou
em sua passagem,
quase certo que sim,
roçando leve o suficiente
para nos infectarmos,
assim, tudo está prestes a se perder,
a paz a partir e a loucura a chegar.
Um súbito de arritmia,
e não queremos mais nos despedir.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011



TIMBRES

A voz é um instrumento
que poucas vezes se copia
o timbre e a altura.
Não posso executar a voz de outro
e não fazem com exatidão a minha.
Que singularidade esse som.
E meu pensamento pausado
vai tocando essas cordas vocais,
quando lento é harmonioso,
a melodia das letras
cai na pauta dos ouvidos, partitura.
Minha voz gravada?
Como pode ser lançada
sem a permissão do pensamento?
Tenho dúvidas.

A vida é mais bonita
quando toco o violão,
seu corpo de madeira
encaixa no meu colo,
nos abraçamos, nos precisamos,
e como não? Nos completamos.
Seu timbre casa com o meu
sem que ninguém fulgure,
e fabricamos sons para alegria própria,
independente do gosto do júri.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011



UM CAFEZINHO...

Eu estava próximo do balcão onde pedimos diversos,
onde amostras de massas tantas, sedutoras, nos extraem saliva.
A padaria.
Tem uma comércio desses, de delícias diversas
na esquina da minha casa,
padarias daquelas que se impõem e ostentam o nome do bairro,
como que oficiais.
Meu guarda-chuva em punho, incômodo, ali comigo esperava,
frente ao balcão, cárcere de delícias.
A funcionária, dentro de seu uniforme vermelho e branco,
passou levemente,
e ao senhor que estava do meu lado perguntou: ‘Quer um cafezinho?’
Ao que o mesmo respondeu afirmativamente.
Hum, naquela tarde chuvosa cairia bem, mesmo naquela movimentação,
naquele entra e sai, um cafezinho...
e aquele senhor devia ser conhecido da funcionária,
ou ela ofereceria à mim também, um quem sabe fresco cafezinho...
Qualquer um aceitaria, imagino então aquele que avisto na avenida lá fora,
indiferente a chuva e protagonista da tarde, eis o catador de trecos,
imagine um caricato catador e adicione cinco amigos caninos, inseparáveis.
Esse protagonista da avenida abriria um sorriso para um bom cafezinho...
Bom, a balconista pescou minha atenção
e pedi à ela então o famoso pãozinho
que nunca foi francês, mas tava quentinho,
esperando encontrar em casa o que cheira longe, um cafezinho.